domingo, março 04, 2007

Se eu pudesse te encontrar hoje...

Se eu pudesse te encontrar hoje chegaria de mansinho, insinuando uma surpresa. Falaria-te todas aquelas coisas corriqueiras que se diz a alguém em um dia como esse. Desejaria-lhe coisas impossíveis e inalcançáveis, não por achar que isso enalteceria o meu desejo, mas por acreditar que a raridade condiz com você de forma exata.
Se eu pudesse te encontrar hoje eu te levaria uma única rosa, amarela. Amarelo é minha cor preferida, e eu não me esqueço que um dia disse-me que amarelo é a cor da loucura, e nada mais propício. Levaria ainda um livro, um livro de poesia, talvez Hilda Hilst ou quem sabe Drummond, que é o seu preferido. Na primeira folha desse livro escreveria-te uma dedicatória simples, lírica e sincera.
Mas se eu pudesse te encontrar hoje ficaria em silêncio por alguns instantes ao teu lado, a fim de apenas sentir sua presença, tentando alcançar o ritmo de sua respiração. Insiparia o ar que nos rodeasse com ânsia de nele ver disperso seu perfume, o qual me elevaria a uma ilusão do encontro com seu sabor.
E se eu pudesse te encontrar hoje não permitira que mais ninguém te encontrasse, não me veja como uma pessoa egoísta, porém te envolveria com abraços e beijos, e só te soltaria quando assim me forçasse.
Mas como sempre há um mas, não pude te encontrar hoje.

sexta-feira, março 02, 2007

CONTARDO CALLIGARIS - "Pecados Íntimos"

CONTARDO CALLIGARIS
"Pecados Íntimos"

O filme, tocante e verdadeiro, é sobre como nosso desejo encalha e se solta"PECADOS ÍNTIMOS", de Todd Field, estreou no dia 9 de fevereiro. Parecia ser mais um filme sobre a vida nos subúrbios americanos de classe média, tipo "Beleza Americana" (vencedor do Oscar em 2000), e fiquei com preguiça. Sempre acho um pouco fácil satirizar uma maneira de viver, como se o jeito da gente fosse o certo: "Aponto o vazio na vida dos outros para me convencer de que a minha é autêntica e plena".Vários leitores me escreveram estranhando que não comentasse o filme. Graças a eles, assisti, enfim, a "Pecados Íntimos", que NÃO é um filme sobre a vida nos subúrbios americanos (a não ser que você considere que "Hamlet" é uma peça sobre a vida na corte da Dinamarca durante a Idade Média). "Pecados Íntimos" é um filme tocante e verdadeiro sobre os caminhos forçados de nosso desejo e sobre como ele encalha (quase sempre) e se solta (aos trancos). Quando ensinava "Cultural Studies" na New School, começava dizendo a meus estudantes que eles eram livres para tirar todas as notas A que quisessem, mas, para entender a subjetividade moderna, eles teriam que passar por três letras B: Brummel, Byron e Bovary. Não era só uma piada de professor: as três figuras em questão, afinal, falam todas de nossa impossibilidade de conseguir, na vida, a nota máxima. Um B já é de bom tamanho. Brummel (o primeiro dandy, no fim do século 18) lembra que a nobreza não é efeito do berço em que a gente nasce; ela é fruto da "elegância" (não tanto das maneiras e da roupa, mas do espírito). O hábito, na modernidade, faz o monge, e somos livres para escolhê-lo. Mas essa liberdade tem um custo: o desconforto de apenas parecer o que somos e, claro, a aflição de parecer o que não somos ou não queremos ser. O hábito faz e aprisiona o monge. Byron (o poeta romântico) lembra que, na vida moderna, o que importa é a intensidade e a variedade de experiências. A fome de viver e o anseio de aventuras levam alguns a lutar pela independência da Grécia, a pular de skate quando mal sabem andar ou a perder-se nas sarjetas do mundo. E nos levam a sonhar com o que não ousamos empreender. Emma Bovary (a heroína do romance de Flaubert) lembra que o amor é o grande operador moderno da mudança. Descobrimos que podíamos inventar nossa vida quando começamos a casar por amor (e não para preservar a casta, a família e o patrimônio). Portanto, esperamos do amor que ele nos transforme e nos leve para uma "outra" vida (e toda vida tem uma "outra" vida com a qual sonhar). Numa cena de "Pecados Íntimos", "Madame Bovary" é comentado por um grupo de mulheres. Elas descobrem (a contragosto) que são todas, de um jeito ou de outro, Emma Bovary: inconformadas com sua vida e desejosas de um amor que as salve. Mas "Pecados Íntimos" é mais que uma adaptação de "Madame Bovary": é um pequeno "tratado" da subjetividade moderna. Até porque, justamente, Emma Bovary sentia que ela era muito mais do que parecia pela "rotina" de sua vida. E seus sonhos de amor eram sonhos de experiência e aventura. Ou seja, os três "B" estão sempre juntos, dentro da gente. Além disso, é difícil sair do cinema sem se perguntar por qual mistério somos condescendentes com nossas impulsões (o pedófilo e a protagonista não são os únicos que não sabem resistir às tentações) e, ao mesmo tempo, inertes quando se trata de mudar de vida. O desejo só consegue se expressar por sobressaltos. É como se, contra o nosso desejo, tivéssemos erigido um dique inútil: a água irrompe, forte, pelas pequenas falhas, mas sua massa não se transforma em energia para inventar a vida. A incapacidade de mudar, aliás, é o grande tema do filme. Há a mãe do pedófilo, que espera que o filho se torne "normal", mas, olhe só, coleciona estatuetas de meninos. Há a mulher que não quer perder o marido, mas enfia o filho no meio da cama e vigia a vida do esposo como uma mãe. Há a mulher que morre de tédio e transa com o marido toda terça às 19h30, embora sonhe em conseguir o telefone de um bonitão. Há o homem que cansou de ser babá do filho, mas, quando se trata de estudar para o exame da Ordem, passa as noites à toa. O título original do filme é "Little Children" (criancinhas). Em matéria de desejo, somos todos criancinhas, incapazes de encontrar a coragem de fazer o que desejamos, mas sempre (e apenas) tentados por potes de geléia.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Vitamina

Estive pensando, eu prefiro ser tratada mal pelas pessoas. Vou-me explicar. Não que desejo que as pessoas me tratem com desrespeito ou coisas do gênero, mas uma coisa é fato, eu não sei lidar com galanteios e gracejos. Isso exige muito de mim. Isso me faz sentir culpada.
Ontem a noite, minha mãe fez uma vitamina, uma atitude rara. Cheguei em casa um pouco tarde e já havia jantado. Logo que adentrei em casa ouço minha mãe gritar: "tem vitamina na geladeira". Ai ai ai, eu não queria mais comer.... estava cheia, mas ela tinha feito vitamina para mim. Estava, então, instaurado um dilema. De meia-noite às três da manhã fiquei me preocupando se tomaria, mesmo sem querer, ou não aquela vitamina. No fim não tomei. Contudo, milhares de coisas passaram em mim até chegar-me a essa decisão. E até o momento sinto uma certa culpa por não tê-la tomado.
É bem verdade: as boas atitudes das pessoas para comigo me irritam. Prefiro não ter essa responsabilidade. Por favor, me tratem com distanciamento. Esquivo-me de ter que ser legal. Eu prefiro ver o mal em mim ao ver o meu mal repercutindo no outro.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Vai Passar - Caio Fernando Abreu

Vai Passar - Caio Fernando Abreu
Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada "impulso vital". Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como "estou contente outra vez". Ou simplesmente "continuo", porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como "sempre" ou "nunca". Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como "não resistirei" por outras mais mansas, como "sei que vai passar". Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência.Claro que no começo não terás sono ou dormirás demais. Fumarás muito, também, e talvez até mesmo te permitas tomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua volta a paisagem de todo dia, sentirás atravessada não sabes se na garganta ou no peito ou na mente - e não importa - essa coisa que chamarás com cuidado, de "uma ausência". E haverá momentos em que esse osso duro se transformará numa espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços.Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamente talvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram teus ombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar. Então fingirás - aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na largatixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça.Tão longe ficou o tempo, esse, e pensarás, no tempo, naquele, e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes como voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à tua volta e limpando o suor frio de tua testa.Já não é tempo de desesperos. Refreias quase seguro as vontades impossíveis. Depois repetes, muitas vezes, como quem masca, ruminas uma frase escrita faz algum tempo. Qualquer coisa assim:- ... mastiga a ameixa frouxa. Mastiga , mastiga, mastiga: inventa o gosto insípido na boca seca ...A personagem está sentada numa escrivaninha. A escrivaninha é muito velha, tem madeira lascada, riscada, manchada de muitas tintas. Falta a gaveta de cima. Pelo vão pode-se ver o que há no interior da segunda gaveta: uma garrafa de Pepsi-Cola vazia e um pedaço de sanduíche de queijo ou/e mortadela. Sobre o tampo, um maço de Hollywood pela metade e muito amassado, uma caixa de fósforos e um pires de cafezinho como cinzeiro. A personagem Lê um livro – de onde não consigo ler o título. A personagem usa tênis brancos (foram brancos), calças de brim azul, desbotado e sujo, um suéter amarelo de lã, esgarçado nos cotovelos. A personagem não olha em volta. Em volta, muitos moças & rapazes com pastas, falando alto (pode-se ouvir, nitidamente, a palavra “dialética”), supõe-se que sejam estudantes. Nas paredes vários cartazes. Num deles, pode-se ler claramente “Cultivar as Almas – ciclo de palestras filosóficas”. Em outro “Você na prévia”. E também: “Pela prática da Liberdade”. Por todos esse detalhes, se supõe que o cenário onde está sentada a personagem seja o diretório do centro acadêmico de alguma faculdade (mas de onde estou não consigo ver claramente). Há uma porta grande de vidro, semi aberta. Lá fora, às vezes chove, às vezes faz sol. Secas e molhadas, as pessoas que entram não param nem falam com a personagem. A personagem está vendendo alguma coisa. De onde estou não consigo ter certeza do que se trata. Mas parecem entradas, dessas para o teatro, cinema, música ou coisa assim. Ninguém pára. Todos falam entre si (pode-se ouvir, nitidamente, a expressão “contradição do sistema”), mas ninguém com a personagem. A personagem pára de ler e olha em volta para ver se está sendo observada. Lentamente. Depois introduz rápida o braço no vão da primeira gaveta (disfarçando com o livro) e, no fundo da segunda, apanha o resto do sanduíche (queijo? Mortadela?). Não vê que eu vejo. Então morde.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Partir

Hunnnnfffff!!!!!! Isso é um suspiro. Mas o que é um suspiro? Um suspiro pode ser tanta coisa. Pode ser desânimo, medo. Pode ser sinal de missão cumprida ou comprida mesmo. Contudo, esse meu suspiro, meio tolhido, meio travado é a expressão de como a vida sempre está pronta para nos provar suas reviravoltas. Eis um suspiro à vida.

Há alguns dias atrás tudo que eu mais queria era ter certeza de estar fazendo a coisa certa. E eu parecia estar. Sentia-me segura da decisão. Mas tudo estava assim... ruim. Tudo estava insosso. Por isso a decisão parecia estar certa. Mas, agora vejo tudo se tornar bom. Um desabrochar de dias áureos. Ah exagero!!!!! Bom nada, porém melhor que antes e predestinadamente a ser melhor.

E agora torço para ter um dia-a-dia ruim. E até tenho de certa forma. Mas quero ter certeza de que devo ir. Entende? Sabe, a única coisa que gostaria de ter um dia era certeza. Certeza de que faço errado, ou de que faço certo. Certeza de que o mundo é assim mesmo e eu estou nele por pura certeza do destino.
Hunnnnffffffff!!!! Mais um. É, cheguei ao fim. Letargia.

domingo, fevereiro 04, 2007

Sobre a ausência

Sabe, eu já não me reconheço mais. E não estou sendo exagerada. É assim, simplismente assim, isso de não se reconhecer. Dizem que nos reconhecemos através dos outros. Mas, por onde andam os outros? Descobri-me só nesse último mês. Os problemas diários afastam uns dos outros. Não é? Você pode me dizer? Comigo é ao contrário. Quero tanto compartilhar meus problemas, mas esses, os outros, já têm problemas demais para ouvir e entender os meus. Mas eu tenho problema demais para ficar com eles só para mim. E não estou me esquivando de saber dos porblemas alheios, eu só queria que compartilhássemos, todos nós, como já foi um dia. Sinto saudades.
Saudades do amigo louco desconstrutivista e da amiga que parecia sempre tão serena, de boa família e bom namorado, boa feição, mas que carregava em si a infitude existecial. E tinha também aquela cuja a vida não facilitara a existência, mas que o ardor era pequeno demais diantes às responsabilidades, e nem assim, deixava de conservar aquele olhar estrelar e um sorriso terno. Como não dizer do menino recolhido em seus poemas e em suas mulheres, cantando a amizade e ensinando a simplicidade tal qual lhe havia ensinado Vinícius de Moraes. Há ainda o de alegria contagiante e expansividade comedida, não ocultando em seu humor o lirismo de viver uma vida pautada em trabalho e digna de um grande sonhador. E tinha aquela menina pueril que se transformava a cada estação, e que se apaixonava também a cada estação.
E havia o tempo. Havia um lugar. Um mesmo desejo. Uniram-se como que literáriamente. E separaram-se como que humanamente.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Para uma menina irritante

Para uma menina irritante
Porque você é uma menina irritante, e eu peço licença ao Vinícius de Moraes por adotar seu estilo de escrever ao me dirigir a você, e não só a ele, como também à "Menina como uma flor", e não só a ela, como a você, permita-me a pouca criatividade.
Você é irritantemente linda com esses cabelos da franja sob a testa que relembram as penugens de um passarinho, e que são iguaizinhos aos meus, que tanto odeio, mas que em você ficam fabulosamente encantadores.
Irritantemente chata, que quando começa uma brincadeira sem graça não termina nunca, a repetindo inúmeras e inúmeras vezes. Irritante também ao gaguejar, quando é propositalmente, é claro, me matando de ansiedade na espera da palavra que forçosamente você reluta em dizer.
Você é a pessoa mais irritante porque me faz querer mais da vida, coisa que nem eu mesma provoco em mim. Faz parecer que trabalhar é bom. Que ter rotina é a melhor coisa do mundo. Isso porque você fala do seu trabalho como alguém que saliva ao ver um prato de macarrão suculento ou uma pizza quatro queijos; porque você é disciplinada e também porque você faz ginástica, três vezes por semana.
É irritante por exigir que as pessoas olhem uma nos olhos das outras enquanto brindam. Que culpa tenho eu se só vejo sua boca? Porque dentro da sua boca tem aqueles dentões, brancos e certinhos, que precisam ir muito ao dentista, e lá eles são fotografados, para que você possa mostrá-los para todo mundo enquanto conta que tem bruxismo. E você tem as sobrancelhas grossas e olhos puxadinhos, que quando sorri desaparecem. E porque você é a única menina irritante que tem a risada mais gostosa que eu conheço e o humor mais incompreendido, como você mesma sabe.
E você também é uma menina irritante por me desconcertar quase que sempre. Como no dia da pizzaria em que eu pretendia te espiar às escondidas, e fui pega no flagra; e porque nesse dia você me fez passar a maior vergonha da minha vida. Mas eu adorei os abraços que ganhei.
E não deixa de ser irritante porque no dia em que machucaram meu olho você foi a única que se indignou, dizendo me defender, se estivesse presente no momento. Assim sendo, eu lhe agradeço a consideração.
Você é uma menina irritante porque está sempre a me propor convites que nunca cumpre; e porque quando sou eu quem os proponho você aceita, por três segundos, convencendo me ao contrário logo em seguida; e assim eu vou ficando sufocada na vontade de reviver um cinema com você. Porque você não deixa de ser uma dessas pessoas erradas, que conhecemos em um dia sem muito esperar, e acaba se tornando mais errada ainda, porque nos apaixonamos. Porque você é uma menina sobre a qual tenho vontade de falar com os amigos ou de lembrar sempre que toca alguma música do Vinícius ou do Chico, que fale de mulheres surpreendentemente, ou melhor, irritantemente apaixonáveis. E você é uma menina cheia de teorias furadas sobre frustrações e não frustrações amorosas, e mesmo cética, não deixa de ser irritante.
E é mais irritante mesmo por me fazer ter insônia, como hoje, em que te escrevo. Em que te escrevo sobre como me irrita sentir isso que sinto por você, que não é amor, por isso não se assuste, viu? mas é uma "possibilidade de amor". E você desperta em mim uma vontade de proximidade, uma vontade de te conhecer mais e mais, mas isso, porque você é uma menina irritante.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Apolo

Apolo e Jacinto, de Jean Broc




Apolo (em gr., Απόλλων) é um deus grego (Febo, na Roma), filho de Zeus e Leto, e irmão gémeo de Ártemis (deusa da caça). Em época mais tardia foi identificado com Hélios, deus do sol, pois era antes o deus da luz, e por arrastamento, a sua irmã foi identificada com Selene, deusa da lua. Mais tarde ainda, foi conhecido primordialmente como uma divindade solar. Na mitologia etrusca, foi conhecido como Aplu. Ao seu nome acrescenta-se, por vezes, epítetos relacionados com os locais onde era venerado, como o título de "Abeu" (de "Abas"), como era conhecido em Chipre.
Mas o seu culto estendia-se muito para além do culto solar. Apolo é também o deus da cura e das doenças, pai de Asclépio, ou Esculápio, venerado junto com este em grandes templos-hospitais, onde se curavam várias doenças, sobretudo através do sono. É ainda o deus da profecia. Inúmeros oráculos eram-lhe atribuídos, sendo o mais famoso e Oráculo de Delfos, o mais importante de toda a antiguidade que era visitado por inúmeros visitantes, alguns dos quais nem eram gregos. Como deus da música Apolo era representado tocando a sua lira, e é o líder das Musas.
Zeus, seu pai, presenteou-o com arco e flechas de ouro, além de uma lira do mesmo material (sua irmã Ártemis ganhou os mesmos presentes, porém de prata). Todos eram obra de Hefesto, o Deus do fogo e das forjas. - Algumas versões dizem que Apolo ganhou a lira como um presente de Hermes.
Outra faceta deste deus é a sua parte mais violenta, quando ele usa o arco, para disparar dardos letais que matam os homens com doenças ou mortes súbitas. Ainda assumindo este lado mais negro, Apolo é o deus das pragas de ratos e dos lobos, que atormentavam muitas vezes os gregos.
Finalmente, Apolo é o deus dos jovens rapazes, ajudando na transição para a idade adulta. Assim, ele é sempre representado como um jovem, frequentemente nu, para simbolizar a pureza e a perfeição, já que ele é também o deus destes dois atributos.
A árvore mais sagrada para Apolo é o loureiro. Crê-se que alguns sacerdotes mastigavam loureiro para dizerem as profecias, outros usavam ramos de loureiro para salpicar o templo na purificação, ou para purificar a água com o fogo. As coroas de louro eram muitas vezes oferecidas a alguém que tinha conseguido algo extraordinário, superando-se a si mesmo, na procura da arete, o ideal grego simbolizado por este jovem deus.
Apolo participa em diversos mitos, incluindo a famosa Guerra de Tróia, onde está do lado dos troianos, dizimando os aqueus com praga quando estes ofendem o seu sacerdote troiano, e acabando por matar Aquiles. A maioria dos mitos que dizem respeito a Apolo falam dos seus inúmeros amores, sendo os mais famosos Dafne, uma ninfa que foi transformada em loureiro (daí a sacralidade da árvore para Apolo), Jacinto, que se transformou na flor com o mesmo nome, e Ciparisso, o qual se transformou em Cipreste. Nestes mitos amorosos, Apolo nunca tem sorte, e existe um mito que conta que isto se deve ao facto de ele se gabar de ser o melhor arqueiro entre os deuses, o que faz com que Eros, deus do amor, sinta inveja.
Ao deus Apolo é tradicionalmente consagrado o dia 22 de Janeiro.

terça-feira, janeiro 23, 2007

Dionísio

Dyonisios Louvre


Dioniso ou Dionísio é o deus grego equivalente a Baco, no panteão romano, deus das festas, do vinho e do lazer. Filho de Zeus e da princesa Semele, é o único deus filho de uma mortal.
Ocorre que Hera, ciumenta de mais uma traição de Zeus, instigou Semele a pedir ao seu amante (caso ele fosse o verdadeiro Zeus) que viesse ter com ela vestido em todo seu esplendor, tal como anda no Olimpo. Semele então pediu que Zeus atendesse a um pedido seu, sem saber qual seria. Ele concordou e imediatamente se arrependeu.
Uma vez concedido o pedido teria que cumpri-lo. Ele então voltou ao Olimpo e colocou suas vestes maravilhosas, já sabendo de antemão o que ocorreria. De fato, o corpo mortal de Semele não foi capaz de suportar todo aquele esplendor, e ela virou cinzas. Assim, Dioniso passou parte de sua gestação na coxa de seu pai. Quando completou o tempo da gestação, Zeus o entregou em segredo a Ino (sua tia) que passou a cuidar da criança com ajuda das híades, das horas e das ninfas.
Depois de adulto, ainda a raiva de Hera torna Dioniso louco e ele fica vagando por várias partes da Terra. Quando passa pela Frígia, a deusa Réia o cura e o instrui em seus ritos religiosos. Sileno ensina a ele a cultura da vinha, a poda dos galhos e o fabrico do vinho.
Curado, ele atravessa a Ásia ensinando a cultura da uva. Ele foi o primeiro a plantar e cultivar as parreiras, assim o povo passou a cultuá-lo como deus do vinho.
Dioniso puniu quem quis se opor a ele (como Penteu) e triunfou sobre seus inimigos além de se salvar dos perigos que Hera estava sempre pondo em seu caminho.
Nas lendas romanas, temos Dioniso como Baco, que se transforma em leão para lutar e devorar os gigantes que escalavam o céu e depois foi considerado por Júpiter como o mais poderoso dos deuses.
É geralmente representado so a forma de um jovem imberbe, risonho e festivo, de longa cabeleira loira e flutuante, tendo, em uma das mãos, um cacho de uvas ou uma taça, e, na outra, um tirso (um dardo) enfeitado de folhagens e fitas. Tem o corpo coberto com um manto de pele de leão ou de leopardo, traz na cabeça uma coroa de pâmpanos, e dirige um carro tirado por leões.
Também pode ser representado sentado sobre um tonel, com uma taça na mão, a transbordar de vinho generoso, onde ele absorve a embriaguez que o torna cambaleante. Eram-lhe consagrados: a pega, o bode a lebre.
Às mulheres que o seguiam como loucas, bêbadas e desvairadas se dava o nome de bacantes.
É considerado também o deus protector do teatro. Em sua honra faziam-se ditirambos na Grécia Antiga e festas dionisíacas.

Fonte *Wikipedia

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Pequenas Epifanias 2 - Caio Fernando Abreu

Carta anônima

Para se ler ao som de Melodia Sentimental, de Villa-Lobos cantada por Olívia Byington
Tenho trabalhado tanto, mas penso sempre em você. Mais de tardezinha que de manhã, mais naqueles dias que parecem poeira assentada aos poucos e com mais força enquanto a noite avança. Não são pensamentos escuros, embora noturnos. Tão transparentes que até parecem de vidro, vidro tão fino que, quando penso mais forte, parece que vai ficar assim clack! e quebrar em cacos, o pensamento que penso de você. Se não dormisse cedo nem estivesse quase sempre cansado, acho que esses pensamentos quase doeriam e fariam clack! de madrugada e eu me veria catando cacos de vidro entre os lençóis. Brilham, na palma da minha mão. Num deles, tem uma borboleta de asa rasgada. Noutro, um barco confundido com a linha do horizonte, onde também tem uma ilha. Não, não: acho que a ilha mora num caquinho só dela. Noutro, um punhal de jade. Coisas assim, algumas ferem, mesmo essas que são bonitas. Parecem filme, livro, quadro. Não doem porque não ameaçam. Nada que eu penso de você ameaça. Durmo cedo, nunca quebra.
Daí penso coisas bobas quando, sentado na janela do ônibus, depois de trabalhar o dia inteiro, encosto a cabeça na vidraça, deixo a paisagem correr, e penso demais em você. Quando não encontro lugar para sentar, o que é mais freqüente, e me deixava irritado, descobri um jeito engraçado de, mesmo assim, continuar pensando em você. Me seguro naquela barra de ferro, olho através das janelas que, nessa posição, só deixam ver metade do corpo das pessoas pelas calçadas, e procuro nos pés daquelas aqueles que poderiam ser os seus. (A teus pés, lembro.). E fico tão embalado que chego a me curvar, certo que são mesmo os seus pés parados em alguma parada, alguma esquina. Nunca vejo você - seria, seriam?
Boas e bobas, são as coisas todas que penso quando penso em você. Assim: de repente ao dobrar uma esquina dou de cara com você que me prega um susto de mentirinha como aqueles que as crianças pregam umas nas outras. Finjo que me assusto, você me abraça e vamos tomar um sorvete, suco de abacaxi com hortelã ou comer salada de frutas em qualquer lugar. Assim: estou pensando em você e o telefone toca e corta o meu pensamento e do outro lado do fio você me diz: estou pensando tanto em você. Digo eu também, mas não sei o que falamos em seguida porque ficamos meio encabulados, a gente tem muito pudor de parecer ridículos melosos piegas bregas românticos pueris banais. Mas no que eu penso, penso também que somos meio tudo isso, não tem jeito, é tudo que vamos dizendo, quando falamos no meu pensamento, é frágil como a voz de Olívia Byington cantando Villa-Lobos, mais perto de Mozart que de Wagner, mais Chagal que Van Gogh, mais Jarmush que Win Wenders, mais Cecília Meireles que Nelson Rodrigues.
Tenho trabalhado tanto, por isso mesmo talvez ando pensando assim em você. Brotam espaços azuis quando penso. No meu pensamento, você nunca me critica por eu ser um pouco tolo, meio melodramático, e penso então tule nuvem castelo seda perfume brisa turquesa vime. E deito a cabeça no seu colo ou você deita a cabeça no meu, tanto faz, e ficamos tanto tempo assim que a terra treme e vulcões explodem e pestes se alastram e nós nem percebemos, no umbigo do universo. Você toca minha mão, eu toco na sua.
Demora tanto que só depois de passarem três mil dias consigo olhar bem dentro dos seus olhos e é então feito mergulhar numas águas verdes tão cristalinas que têm algas na superfície ressaltadas contra a areia branca do fundo. Aqualouco, encontro pérolas. Sei que é meio idiota, mas gosto de pensar desse jeito, e se estou em pé no ônibus solto um pouco as mãos daquela barra de ferro para meu corpo balançar como se estivesse a bordo de um navio ou de você. Fecho os olhos, faz tanto bem, você não sabe. Suspiro tanto quando penso em você, chorar só choro às vezes, e é tão freqüente. Caminho mais devagar, certo que na próxima esquina, quem sabe. Não tenho tido muito tempo ultimamente, mas penso tanto em você que na hora de dormir vezemquando até sorrio e fico passando a ponta do meu dedo no lóbulo da sua orelha e repito repito em voz baixa te amo tanto dorme com os anjos. Mas depois sou eu quem dorme e sonha, sonho com os anjos. Nuvens, espaços azuis, pérolas no fundo do mar. Clack! como se fosse verdade, um beijo.
Caio Fernando AbreuO Estado de S. Paulo, 16/03/88
Pequenas epifanias